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Passos Perdidos

Passos Perdidos

O Romance do Gramático

 

Ficção, história, pedagogia e atualidade

no enciclopédico O Romance do Gramático

de Ernesto Rodrigues

 

Norberto Veiga

 

 

Nada consola mais o autor de um romance do que a descoberta de leituras

em que não havia pensado, e que os leitores lhe sugerem.

Umberto Eco, Porquê «O Nome da Rosa», Difel, Lisboa, 1984, pág. 11.

 

Começo este breve apontamento sobre o enciclopédico romance de Ernesto Rodrigues, O Romance do Gramático (Gradiva, 2011), tecendo alguns comentários sobre os elementos paratextuais que o compõem e que estão intimamente relacionado entre si, laborando para formar um todo harmonioso em que acabou por se traduzir o livro.

Assim, segundo creio, encontramos na obra seis paratextos, a saber: O título, a “Notícia” (5-10), a epígrafe (11), o “Parecer” (141-144), estes na primeira parte da obra; as “Advertências” (149-150) e, por fim, o “Argumento” (151-156).

Todos estes elementos concorrem para a estrutura, fortemente programada, da obra, mas são também significativos, segundo Genette[1], cumprindo capitais funções para a descodificação da mensagem que o autor quer transmitir ao leitor. O título do romance cumpre a missão de apresentar, desse logo, o assunto [Genette, 1997: 76]. Contudo a identificação não é completa, mesmo tendo em conta a capa do livro, na qual aparece a página de rosto da obra de Fernão de Oliveira. Desta feita, só com a leitura da epígrafe, retirada da Gramática da Linguagem Portuguesa, é que o leitor pode, sem margem para dúvidas, descodificar o título [cf. Genette, 1997: 144-160]

Ato contínuo, encontramos o que para mim é o principal paratexto, “Notícia” (5-10). Começo por referir que, na minha ótica, o romance O Nome da Rosa[2] de Umberto Eco é o hipertexto, segundo Gérard Genette, Palimpsestes, desta obra de Ernesto Rodrigues. Desde logo, pelo recurso ao manuscrito e à efabulação que o mesmo permite estabelecer entre realidade e ficção, tornando, assim, a narrativa verosímil [cf. Eco, 1980: 11-21]. É, pois, neste elemento paratextual que o autor/narrador explica e introduz o leitor no texto. Aqui são audíveis ecos autobiográficos do escritor: “Eu tinha, como Fernando, vinte e cinco anos” (p. 10). Este texto informa o leitor do tempo histórico do romance, que é o século XVI, e, ainda, do protagonista do mesmo (o gramático Fernão de Oliveira). Saliento, de novo, o valor matricial deste paratexto para todo o romance, pois cria a ilusão de que, em pleno século XX (tempo da escrita), o autor/narrador recebe um documento entregue pela personagem feminina na Hungria, que vai ser, apenas, atualizado. Ora, esse manuscrito vai materializar-se na parte consubstancial do romance, intitulada Recto / Index.

A primeira parte do livro termina com o paratexto “Parecer”, que, segundo creio, serve dois desígnios: o primeiro, certificar a historicidade da ação narrada, uma vez que, na época, todos os livros tinham de ter o parecer prévio do censor[3]; o segundo facilita a construção ficcional da obra, a nível da legitimação do pergaminho, pedra-angular da primeira parte do texto. Termino com a referência à desconstrução textual do manuscrito, servindo-me das próprias palavras do autor: “Pareceu-me ser necessário advertir que o Autor usa de uma ficção que não é poesia e fingimento.” (141, sublinhado meu)

Passando aos dois paratextos da segunda parte, encontramos, a seguir ao subtítulo «Uma História Mal Contada» e da referência espácio-temporal «1510-1581, Lisboa, Portugal», o paratexto “Advertências”, que inicia com a citação de Filippo di Strata: “É virgem esta pena, a imprensa, meretriz.” (149) É um parecer favorável à publicação do livro; note-se posição contrária do censor no “Parecer” da primeira parte da obra. Destaco, ainda, a cristalizada forma, usada pelos censores do século XVI: “Este livro é digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas.” (149) [cf. Os Lusíadas] Abro um pequeno parênteses para realçar a posição do autor sobre a obra, que vai na senda da que defendo, “tela e figura desfazem-se, ao tocá-las visão única.” (150) Assim, a “tela”, segundo creio, corresponde à primeira parte da obra e a “figura” à segunda, que apenas associadas fazem sentido, formando uma acabada obra, ou, nas palavras do autor, “visão única”. (150) Julgo, também, interessante registar que essa unidade é fortalecida pela existência destes dois “pareceres”, pois, se a primeira parte termina com um não que parece definitivo, a segunda inicia com um sim que tudo promete, restabelecendo, assim, a unidade do fio narrativo.

Por último, encontramos o elemento paratextual “Argumento” (151-156), que legitima, contextualiza, esclarece e encerra as questões escalpelizadas nos textos anteriores, que tenho vindo a dilucidar.

 

Arrumadas as questões paratextuais, passo a apresentar a minha proposta de “leitura” deste romance tão enciclopédico e “culto”[4]. Para o efeito, decidi estabelecer oito tópicos, que enumero: 1. romance fortemente estruturado, 2. romance histórico, 3. unidade na diversidade, 4. ficção versus realidade, 5. pendor pedagógico, 6. presente da escrita, 7. louvor e defesa da Língua Portuguesa, 8. jornada humana.

 

  1. Como já tive ensejo de referir, O Romance do Gramático de Ernesto Rodrigues é uma obra fortemente organizada tanto a nível da estrutura externa como interna. Assim, externamente, a primeira parte ‒ que responde pelo título de “Recto/ Index”, situando-se a intriga, em termos de espaço e tempo, em 1532, em Bled, na Eslovénia ‒ é composta por quinze capítulos, mais os paratextos mencionados acima. A segunda por sete passos que reenviam a memória cristã do leitor para as estações da via-sacra de Jesus identificando a existência terrena, neste caso, a vida de Fernão de Oliveira, como um rol de trabalhos e canseiras, onde a única certeza possível é a da morte, ou, como assevera o autor, a “Queda”, último capítulo do livro. Esta queda, com ressonâncias de Camus, que representa metaforicamente a derrota do homem na luta contra as forças visíveis e invisíveis do planeta, é personificada, no romance, pelo gramático Fernão de Oliveira, que por sinédoque representa todo o ser humano. Corroboram esta leitura as seguintes passagens do texto: “Porque o justo cairá sete vezes, verdade é que ele não era tal, se mais vezes não caiu.” (159); “Porque o justo cairá sete vezes [cf. Provérbios 24:16] verdade é que nenhum deles era tal, se mais vezes não caíram.” (227, sublinhado meu) Constata-se, assim, que há uma evolução do primeiro passo para o último, isto é, passa-se do individual para o coletivo, ou melhor, do “eu” para o “nós”. Daí que se entenda, agora, que Oliveira representa, no final da obra, todos os mortais.

Quanto à estrutura interna, ela é assegurada pelos vários paratextos, escalpelizados atrás. A primeira parte inicia com os conselhos ao leitor no apartado “Notícia” e a segunda em “Advertências”, seguida de “Argumento”, que funciona como leitmotiv da última parte.

 

  1. O leitor mais distraído não terá dificuldades em nomear este romance de “histórico”, mesmo tendo em conta toda a carga subjetiva que o adjetivo transporta. Creio que o objetivo do autor passa por criar um esboço o mais nítido possível do primeiro gramático português e, desta forma, reabilitar a imagem, por vezes, tão maltratada pela investigação histórico-literária, de Fernão de Oliveira. Outra razão que poderá ser convocada é o facto de ambas as partes/histórias se situarem cronologicamente no século XVI, um século a todos os títulos significativo. Outro elemento histórico encontra-se na alusão do ataque Otomano à Hungria que foi previsto por Sá de Miranda, introdutor do soneto em Portugal. (18) Este acontecimento é relatado com mais pormenor na página 55, na qual se enaltece a luta contra o infiel, que queria tomar a Hungria. Assinalo, ainda, as várias referências ao Concílio de Trento e à sua ação no mundo religioso e a figura do Infante Santo Fernando cativo em Fez, por razões de Estado, que, sem dúvida, enformam historicamente a obra. (20)

Todo o “Argumento” da segunda parte tece um retrato de Lisboa que é atual, embora se reporte ao passado (152). Também, a narração do processo (187) que a Inquisição moveu a Fernão de Oliveira (sendo tudo falso e as testemunhas orquestradas contra ele), para além do indubitável valor histórico, pode ser lida como uma cáustica crítica à administração da justiça nos tempos hodiernos.

Nomeio, por último, não querendo ser exaustivo, a grande peste que assolou Lisboa, em 1569 (narrada no sexto passo, 207), onde encontramos expressões como “grande mortandade” e “Se conto assim é porque fugi, fui mau, sobrevivi.” (208), que, segundo penso, remetem para a primeira parte do poema “Nós” de Cesário Verde.

 

  1. A estrutura bífida do romance pode ser deduzida numa primeira leitura, até porque o escritor não se cansa de o repetir em várias passagens.

Como já referi acima, o romance apresenta duas partes: a primeira intitulada “Recto / Index” e a segunda denominada “Verso / Uma História Mal Contada”, onde a ficção anda de mãos dados com a realidade/verdade histórica. Registe-se o facto de o dominicano que veta o lançamento do livro “Recto / Index” ser o mesmo que narra o “Verso / Uma História Mal Contada,” segunda parte da obra. No entanto, a mão do copista, ou melhor, do autor, é visível ao longo da narrativa, como patenteia o excerto seguinte: “Digo que a escrevo aos vinte e cinco anos, com factos históricos que só ocorreram depois, e um amigo, Duarte Nunes, acabado de nascer (em 1530?), completará, se quiser”. (139) Neste capítulo, que é o último da primeira parte, narrado na primeira pessoa, Fernão de Oliveira fala, em jeito de autobiografia, das obras que já publicou. (139) Quero, também, destacar a preocupação do gramático em escrever “este discurso em romance” (idem), o que enalteceria e ajudaria a Língua Portuguesa a autonomizar-se e a impor-se, definitivamente, ao Latim. (139, 40) Veja-se, a este propósito, o discurso parentético sobre a sua obra A Arte da Navegação, que passo a citar: “Perdeu-se; mas também era em latim…” (140)

Outro argumento que posso convocar para a unidade da obra cumpre-se nesta passagem da segunda parte do romance: “Do que Fernando dá nota […] no recto de um manuscrito, que desejava nosso primeiro romance em prosa.” (154, sublinhado meu) Não será difícil passar o determinante do plural para o singular, corroborando, em meu juízo, o “estratagema” do manuscrito e toda a sua envolvência, como atrás demonstrei. Acrescento, apenas, que estas e demais passagens escalpelizam a intenção, a sageza e a ars deste soberbo escritor/romancista que é Ernesto Rodrigues.

Encerro este tópico carreando mais três exemplos. O primário diz respeito à menção de um filho que Oliveira não conheceu, com que termina a primeira parte do texto: “Com este manuscrito de Index, encontrava-se roupa de mulher – a qual guardava (Deus da Salvação!) sinal evidente do filho que ele não conheceu.” (144) A chave deste mistério o leitor só a encontrará no final da segunda parte. Também as referências às missões em que partira Fernando de Oliveira são idênticas em ambas as partes, a saber: preferia ruas de Castela à cela lusitana, fuga amorosa e razões de Estado em missão secreta (154). O derradeiro segmento textual que convoco encontra-se na página 170, quando se relata a história do crocodilo que emprenhou uma jovem: “Não seria ele o crocodilo? Judite, a mulher formosa? E labirinto, aquele labirinto e romance da sua vida, que sumulou em poucos dias de Setembro de 1532, como diz?” Este excerto, para além de estabelecer a ligação com a primeira parte do romance, apresenta-nos, igualmente, traços autobiográficos do protagonista da obra.

 

  1. Todo o romance, e por defeito o histórico, assenta na simbiose entre realidade e ficção, tornando, desta forma, o texto verosímil e a intriga mais apelativa e interessante para o leitor. Digamos que à ficção cabe a função de embelezar e suavizar (semelhante à mitologia nas epopeias) os dados ou a verdade histórica. É, sem dúvida, desta luta titânica que germinam os grandes e imortais romances.

Dado que sobre a vertente/realidade histórica já me pronunciei, o meu enfoque centrar-se-á, agora, na ficção. Atendendo ao que já foi escrito, não devem subsistir dúvidas de que estamos na presença de um romance autobiográfico. A obra assenta na tríade: Eu / Fernão / Laura. (cf. Petrarca) Estranharão, porventura, o pronome pessoal. No entanto, o escritor/Ernesto Rodrigues desvela-se na obra nas múltiplas alusões aos seus dados biográficos, que, como são deveras conhecidos, dispensam-me a obrigação de os apresentar.

Outro dado ficcional, de grande relevância para a organização interna da primeira parte do romance, materializa-se na figura do “cristo do ano”. Neste momento, o narrador, recorrendo à ironia, apresenta-nos uma outra visão de Cristo, que nos traz à memória o capítulo III de A Relíquia, de Eça. Refira-se, a este propósito, que o autor se revela um profundo conhecedor do texto bíblico, nas várias referência, citações e alusões que dele faz, associadas à figura de Cristo [cf., a título de exemplo, as páginas 36, 45, 47, 48 e 92]. Cristo, ou melhor, os vários concorrentes ao concurso “cristo do ano”, é-nos apresentado como um simples humano que vagueia em alto mar em vez do deserto até à “queda definitiva”. Também, o cristo-político, que chega com a sua assessora e o seu guarda-costas (60), configura uma alusão clara e sarcástica à prática democrática quotidiana. A Igreja e os seus dirigentes também não são poupados, quando lemos: “Cristãos, é certo, mas nada apostólicos.” (143)

Refiro, de seguida, alguns dados que auxiliam o leitor a desfazer a teia urdida, de forma ficcional, pelo autor, quando divulga as datas da biografia de Fernão de Oliveira (139).

 

No capítulo catorze, “Índice”, que pode ser lido como o desenlace da primeira parte, o relator desfaz o tecido, qual Penélope, que tecera no início e revela ao leitor que tudo não passou de uma ficção: “Ficámos num ah. O leitor, perplexo, que não era para menos. Fora enganado.” (130) Este tópico é retomado no início da segunda parte, corroborando o que afirmamos acima sobre a unidade da obra, em que o narrador interpela diretamente o leitor, à semelhança de Garrett nas Viagens…, ao afirmar: “Eu avisei-te, leitor.” (149) O autor/narrador, no seu intuito de codificar o texto, para de certa forma ofuscar a lente, joga com a escrita, afirmando: “se não escondesse, entre anátemas ao leitor, é que a minha vida não faria sentido.” (185)

Outro aspeto ficcional que enriquece o texto encontra-se nas razões que presidiram à saída de Portugal de Fernão de Oliveira, uma vez que, sendo múltiplas, não são claras. Para além das três, já referidas, menciono, ainda, vigiar a Europa que fazia concorrência a Portugal, em especial na arte de marear. (154)

O derradeiro aspeto ficcional que indico prende-se com o censor que redigiu o “Parecer”. Parece-me que, para acentuar mais a ficção, o leitor é conduzido ao pensamento de que este censor poderá ser o mesmo Frei Bartolomeu Ferreira que escreveu o parecer de Os Lusíadas e que, segundo reza a lenda, teria um gosto literário apurado, caso raro nessas funções, tendo salvado vários livros da Inquisição, no século XVI. Por fim, no sétimo passo, o narrador, ao referir-se, de forma condoída, ao conceito de fim da pátria, em 1580 (225), reafirma, dando a palavra a Fernão de Oliveira, que o que permanece é a escrita e, dentro desta, sobretudo a ficção: “A ficção consegue esse milagre. Transformou-me no que não tive coragem de ser, por cobardia, dando-me, pouco antes de morrer, a coragem de me salvar aos olhos de dois amigos.” (226)

 

  1. Outra característica que ressalta à vista, da leitura desta obra, é o seu pendor moralizante ou pedagógico, sempre orientado para a positividade da vida. O narrador começa por afirmar: “A dúvida marcou-me.” (17) E acrescenta: “Tem de haver razão forte para se continuar na mentira.” (17) A importância destas sentenças prende-se com a filosofia de vida que podem dar ao leitor, auxiliando a sua autognose e o conhecimento do mundo em que vive. Na página 28, encontramos: “Tem cada homem seus caprichos; e, se pudermos, não sejamos infelizes.” Aliás, a procura da felicidade é o ideal de todo o ser humano. A felicidade associada à tranquilidade e à paz de espírito auxiliam a caminhada terrena, como lemos nesta passagem: “É injusto não viver tranquilo.” (51) E como “Nunca sabemos para que funções estamos guardados.” (88), “Não podemos ser tão mudáveis.” (65), e, para a consecução desse desígnio, “A velha amizade, o melhor caminho”. (64)

 Noutros momentos regista-se a desilusão do autor com a postura e a mentalidade dos seus concidadãos, que tendem a valorizar o que é estranho: “É prática antiquíssima ir buscar fora o que não há dentro.” (36) Tudo isto são consequências da liberdade em que vivemos e que deve ser continuamente repensada e defendida: “Tê-la-íamos, à liberdade, sem tantas imposições?” (57) Encontram-se, ainda, conselhos relacionados com os livros, isto é, o alimento do espírito: “O amor vai bem na falta de livros. Cresce em prazer.” (67); e, também, “Onde falta pão faltará livro.” (88)

Para concluir, arrolo: “É muito antiga esta miséria portuguesa de não saber dar lugar às virtudes, nem engradecer honrosos pensamentos, antes acanhá-los em modas, e desprezá-los, contentando-se da glória de seus passados.” (167) Esta afirmação em jeito de desabafo, ao estilo de Saramago, enfatiza a realidade portuguesa, tanto passada como presente, visto que somos tão eficazes a reconhecer e a louvar os de fora como a rebaixar os de dentro. Só deste modo se pode compreender o desabafo do narrador: “A vida é triste; nem sermos bons nos alegra por dentro.” (185)

 

  1. É um lugar-comum afirmar que o escritor escreve para o presente, embora o tema, a ação do romance verse sobre o passado ou o futuro. O mesmo se infere das palavras de Umberto Eco: “Haverá algum escritor que escreva apenas para as gerações futuras? Não, nem pode sequer afirmá-lo porque, como não é Nostradamus, só pode conceber os leitores futuros a partir do modelo daquilo que sabe dos contemporâneos.” [Eco, 1984: 41]

Ora, com este romance, Ernesto Rodrigues quer filar a mente dos seus contemporâneos e auxiliá-los na sua via-sacra terrena, como vimos no apartado anterior, para que os mesmos se tornem cidadãos mais cônscios, conscientes dos seus direitos e deveres. Desta forma, o leitor não estranhará o facto de se criticar, sempre com ironia, predicado do autor, o aproveitamento que as pessoas fazem da vida nos dias de hoje, que jogam golfe e desperdiçam o tempo nestas e noutras distrações mundanas, em vez de se dedicarem a causas mais nobres e que deem sentido à existência: “Além do termalismo, estes metem bolas em buracos verdes e disputam-se canoas, com afogamentos à mistura. É uma forma de passar a vida.” (52, sublinhado meu) Note-se o verbo passar, que me parece ser sinónimo de gastar/perder a vida, ao invés de a ganhar, salvando-se a si e ao próximo.

Outro exemplo de que o escritor está preocupado com o presente da escrita pode ver-se na referência que faz às lutas intestinas entre os membros da Igreja, que, pelo poder, tudo realizam até matar e abandonar quem lhes possa fazer frente. “O provincial, setentão, conquistara o lugar a troco de subornos. Leiloaram almas, uma a uma, e, bom, em cinquenta anos de nenhuma oração rezada de cabo a rabo, vira desertar uns para o Céu, outros para o século, chantageando restantes. Sem amigos. O que esperava? Fazer-se cortesão. Cuidar imagem. Subir ao céu possível.” (78) Isto se poderia dizer, sem trocar vírgula, da política portuguesa atual, como o leitor, facilmente, deduzirá. Nem eu concebo retrato mais sagaz e acabado da sociedade contemporânea. A denúncia e a condenação da homossexualidade e dos abusos execráveis pelos membros da Igreja, que infelizmente estão na ordem do dia, encontram-se forjadas nestas linhas: “O adjunto concedia-lhe favores carnais. «Carne de sua carne», e riam.” (79) A intemporal aliança e cumplicidade entre a política e religião é aflorada em várias passagens; cito esta, a título de exemplo: “fosse um mártir da fé ou cativo por razões de Estado. Fé e política irmanavam-se.” (134,5) A administração da justiça e o comportamento dos magistrados davam/dão mau exemplo ao estrangeiro, repercutindo-se esse facto, de forma negativa, nas relações de Portugal com outros países: “Disto se segue que muitos dos nossos infelizes compatriotas, mareantes e mercadores, entre aqueles e outros povos, sofrem ofensas por falta de cautela dos magistrados deste reino, cuja prudência por modo algum atende aos negócios externos.” (201)

Contudo, esta aguarela portuguesa só fica completa com as tintas da ignorância e da desinformação, porque o saber é encarado como um perigo para quem governa, que não gosta de ver questionado o seu poder discricionário. Esta postura remete-nos para as palavras, sempre atuais, de D. Miguel, na obra Felizmente Há Luar!, de Luís Sttau Monteiro: “Sonho com um Portugal próspero e feliz, com um povo simples, bom e confiante, que viva lavrando e defendendo a terra, com os olhos postos no Senhor. […] Não concebo a vida, Excelências desde que o taberneiro da esquina possa discutir a opinião d’el-rei, nem me seria possível viver desde que a minha opinião valesse tanto como a de um arruaceiro.”[5]

 O tríptico completa-se com as cores do silenciamento e da uniformização, isto é, do pensamento único, ou melhor, da rejeição do mesmo, sendo preferível seguir as ideias do “chefe” de forma acéfala, muito em voga na atualidade. Tal como lemos no romance: “Tudo se faz para que um homem não duvide. A pensar no bem de quem?” (134); “O latim é útil, se traz o silêncio dos ignorantes e a mastigação corre de boca em boca fechada.” (107, sublinhado meu)

A terminar esta parte, apresento, à guisa de conclusão, este excerto que sintetiza o pensamento do autor sobre o assunto, que corroboro: “Nós somos criação divina, não criadores. Partes de uma obra que nos pede louvor, sem a interrogar. Viver rotinas educa-nos a acção e desbota as cores fabulosas da imaginação, que não é ofício próprio de quem reza para o mesmo lado.” (162)

 

  1. A defesa da língua Portuguesa é uma questão que atravessa todo o romance e o seu elogio ou ataque é colocado nos lábios de vários personagens. Assim, encontramos várias posições, desde logo, a de Fernão de Oliveira, que a sustentava abnegadamente, em pleno tribunal da Inquisição, combatendo a posição desta, que defendia a ideia de que “a nossa língua é um empecilho; maior, só mesmo quem a mastiga.” (181) Perante esta tese, é impossível não pensar nos ataques que, de forma mais ou menos velada, se fazem, no presente, à língua de Camões. Lembro, ainda, o grande enfoque que se tem dado ao Inglês nos últimos anos, mais parecendo que basta sermos proficientes nessa língua. Ouçamos, de novo, em jeito de reflexão final, o autor: “Eu juraria que quem folga de ouvir língua estrangeira na sua terra não é amigo de sua gente, nem conforme à música natural dela.” (180)

Outra agressão, em minha opinião, que deixou marcas insanáveis na Língua Portuguesa, aconteceu com o último acordo ortográfico, agora em vigor, e no pouco cuidado que os teóricos manifestaram perante as sensibilidades do idioma pátrio. Esta atitude parece-me mais consentânea com a da Inquisição, referida antes. Talvez seja por essa ordem de razões que o autor Ernesto Rodrigues não segue a nova ortografia.

Saliente-se, ainda, o interesse e a valorização das letras pelos cidadãos, pois os nobres da época deixaram de convidar João de Barros por este não os citar nas suas Décadas. (cf. 191, 2) O assunto não pode sem mais atual, uma vez que os elogios, por norma, se fazem por interesse e não por mérito. Este episódio traz-nos à memória os decassílabos do canto V, estância 97, d’Os Lusíadas, “Sem vergonha o não digo: que a razão / De algum não ser por versos excelente / É não se ver prezado o verso e a rima, / Porque quem não sabe arte, não na estima.”[6]

Na senda desta inquietação encontramos este exemplo: “Fernando contou de Júlio César, que, embora clemente, despediu «um legado consular, por lhe escrever em uma carta um icsi por epsi».” (202) De seguida, desabafa: “E agora tem-se tão pouco respeito ao bom ou ao mau escrever…” (202) Creio que, se o leitor encontrasse estas palavras descontextualizadas, não teria dificuldade em atribuí-las ao presente, tal é a sua atualidade. Foi por estas e outras semelhantes atitudes que o protagonista da obra padeceu, como se depreende da leitura, em dois momentos, os suplícios do Santo Ofício, sendo vítima da inveja, da religião e do tempo, que o odiavam pelas suas ideias vanguardistas para a época.

Apresento um outro exemplo que ilustra o pioneirismo do gramático Fernão de Oliveira, no qual defende a ideia de se escrever como soa (cf. 194). Esta proposição é, hoje, a pedra de toque da linguística moderna e do novo acordo ortográfico. Por último, refiro esta citação: “alimentava-se de pão e tinta.” (216) ‒ confirmando a grande afeição que Fernão de Oliveira/Ernesto Rodrigues dedicam à Língua Portuguesa.

 

  1. A peregrinação terrestre sempre esteve associada ao sacrifício e ao cumprimento de regras e preceitos. Desde o fardo bíblico ‒ “comerás o pão com o suor do teu rosto” (Gen. 3,19) ‒ até aos nossos dias, a vida terrena é feita de trabalhos e canseiras que só podem ser suavizados pela disciplina e pelas regras, estando o ser humano em constante devir.

Assim, o homem é ajudado pela disciplina e pelos ensinamentos que adquire sentado à mesa de trabalho, imitando São Jerónimo: “onde erguera estante breve para imitar São Jerónimo.” (123) Conclui-se, deste modo, que o labor intelectual é austero, duro e sem distrações supérfluas.

No capítulo “Final”, verificamos que o homem é transformado pela caminhada: “Olhando para trás, estes dias são eternidade, e o que vejo está um pouco antes, na juventude feita dúvida, naqueles olhos que não louvei bastante, quando se entrefechavam no supremo prazer que só o amor admite.” (133) Estas palavras podem remeter o leitor para os versos “caminhante não há caminho faz-se caminho ao andar”, de António Machado. No entanto, o percurso cultural e moral do homem é atribulado e feito de dúvida e de conhecimento: “Eu duvidava, não de Deus, ainda” (48) Nesse itinerário, o homem dispõe da ajuda da mulher que lhe prepara a fuga para o levar para longe e amá-lo, sem intrigas, invejas (63) e longe dos enredos civis e religiosos. (64) A mulher, ou melhor, o cristo-mulher inspirado na figura bíblica de Judite, não é mais do que um instrumento da justiça divina para o bem e para o mal. (134)

 A caminhada é árdua, mas o homem/narrador não se dá por vencido; “Eu estive lá. Saí derrotado, mas não vencido.” (154) Creio que estas palavras partilham da filosofia de vida do velho Santiago de O Velho e o Mar de Ernest Hemingway, que afirma: “Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.”[7] O narrador/autor, para não claudicar, exercitava uma disciplina férrea que o subjugava: “A disciplina custava-lhe, como a todos nós.” (162) Próximo do fim declara, num tom mais intimista e até confessional, que amou e que nunca prejudicou terceiros, e, por isso, segue em paz com a sensação de dever cumprido, embora se queixe da indiferença de que é difícil libertarmo-nos: “Vou pacificado, mártir ou santo de circunstância. Cada um dirá de mim parte dos seus receios.” (140)

 

Termino esta proposta de leitura convocando, em minha defesa, as palavras de Eduardo Lourenço: “O crítico é o leitor que se crê autorizado a decidir por imaginar ter descoberto os critérios, os pontos de referência, o sistema capazes de introduzir uma ordem no caos da criação.”[8]

Nem outro foi o meu propósito, sempre norteado pela sentença de Sá de Miranda: “Quantos os ledores, tantas as sentenças.”

 

 

 

[1] GENETTE, Gerard, Paratexts: Thresholds of Interpretation, Cambridge University Press, 1997.

[2] ECO, Umberto, O Nome da Rosa, Difel, Lisboa, 1980.

[3] Refiro o exemplo do parecer de Os Lusíadas, que poderá ter funcionado como modelo para o autor, visto que é o mesmo frei (Bartolomeu Ferreira) que assina os dois “documentos”.

[4] ECO, Umberto, Porquê «O Nome da Rosa», Difel, Lisboa, 1984. Na página 35 desta obra, podemos ler: “Só me apercebi disso dois anos mais tarde, justamente ao tentar encontrar uma explicação para o facto de o livro também ser lido por pessoas que não podem naturalmente gostar de livros tão «cultos».”  

[5] MONTEIRO, Luís de Sttau, Felizmente Há Luar!, Areal Editores, 1999, pág. 69.

[6] Camões, Os Lusíadas, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão. Apresentação de Aníbal Pinto de Castro. ICALP, Ministério da Educação, Lisboa, 1989, pág. 147.

[7] HEMINGWAY, Ernest, O Velho e o Mar, Tradução de Jorge de Sena, Livros do Brasil, Lisboa, S. d., P.109.

[8] LOURENÇO, Eduardo, O Canto do Signo Existência e Literatura, Editorial Presença, Lisboa, 1994, P. 21.

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